MARCELO AULER, jornalista
PASQUIM nº 20 - 02 a 08 de julho/2002
A DOÇURA E SIMPLICIDADE DE UM GÊNIO
Carlito Maia sempre teve muitas qualidades. Deve ter tido também seus
defeitos, como todo ser humano, mas para os amigos só sobressaíam mesmo
as virtudes. Muitas, por sinal, mas três delas se destacavam, pelo menos
para mim, nos poucos anos em que me apaulistei e pude conhece-lo um
pouco.
A simplicidade com que ele lidava com a vida, era algo que se destacava.
Famoso, toda São Paulo, apesar de megalópole, o conhecia e, mais do
que isso, queria muito bem a ele. Principalmente quem era - ou se dizia
- de esquerda, naquele início da década de 80, quando as divisões e
rachas entre os que lutaram juntos contra a ditadura militar ainda não
eram profundas. Apenas estavam começando.
Além de simples, ele era uma doçura só, com sua voz fina e mansa e com
sua tradicional mania de mandar flores para todos, por qualquer motivo.
Não interessava o que acontecia - lançamento de livros, shows, aniversários,
ou quaisquer outras comemorações - as flores do Carlito eram sempre
as primeiras a chegar. E mesmo sendo tradicionais - portanto, até previsíveis
-, mexiam com quem as recebia.
Mas além da simplicidade e da doçura, Carlito Maia tinha uma genialidade
fora-de-série. Sacava as coisas rapidamente, tinha frases marcantes,
nos momentos mais diferentes possíveis.
Certo dia, desfrutávamos da boa acolhida da família Kotscho, naquela
aconchegante casa que ainda hoje permanece de portas abertas, na Cidade
Universitária. Provavelmente comemorávamos algum aniversário, não importa.
Era uma época em que não precisávamos de motivo para nos reunir, sempre
tínhamos tempo para dividir entre os amigos e, o que é mais importante,
não faltava assunto para as longas conversas.
Estávamos em 1982, ano da primeira eleição direta para os governos estaduais.
Numa roda, na beira do jardim, a discussão corria solta. De um lado,
um grupo encabeçado pelo dono da casa, Ricardo - que ainda não tinha
virado assessor de Lula -, reforçado pela argumentação de Paulo Patarra,
defendíamos o líder metalúrgico no Palácio dos Bandeirantes. No outro,
Quartim de Moraes, já assessorando Franco Montoro, vendia seu peixe,
ajudado por Zélio, que naquela época ainda creditava que o PMDB era
a melhor saída. Tempo bom, quando se podia discutir entre Lula e Montoro,
nem sequer imaginávamos os candidatos colloridos que ainda veríamos
pela frente.
O papo corria solto, a discussão era acalorada - como sempre - as defesas
de cada candidato intransigentes. Ninguém pensava em fazer a cabeça
de ninguém. Apenas discutia-se por discutir, tentando resolver nas rodas
de discussão todos os problemas do País. Nem fazíamos idéia do que ainda
iríamos ver, das mudanças que presenciaríamos, dos intelectuais daquela
época que depois pediriam que esquecêssemos o que tinha escrito e dito.
O único que ficou quieto o tempo todo era Carlito, parecia alheio. Ninguém
reparou quando ele conseguiu junto a uma das três mulheres da casa -
a doce Mara, a simpática Mariana, hoje jornalista como o pai, ou a trepidante
Carol - um papel e uma caixa de lápis-de-cor.
Lá pelas tantas, o silêncio dele pareceu incomodar aos demais, fazendo
com que alguém o questionasse, não tanto para saber de que lado ele
estava - pois isso era público - mas provavelmente em busca de uma frase
genial, ou uma de suas tiradas fantásticas. Carlito, chamado à roda,
não entrou na discussão.
Sem se deixar contagiar pela exaltação dos demais, permaneceu com sua
fisionomia doce, sorriso nos lábios. Num gesto simples, sacou o papel
no qual, pacientemente, em letras pretas e vermelhas, acabara de bolar
o símbolo que acompanhou o Partido dos Trabalhadores para o resto da
vida: OPTEI.
Era assim que funcionava Carlito: de forma simples, mas genial. Agora
o perdemos, justo numa época em que o Brasil mais precisa de pessoas
como ele: simples, doces e geniais.
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