/ memória

 

Antonio Malta
Aparecido Araujo Lima
Armando Ferrentini
Bernadete Sobreiro Holveri
Carlos Careqa
Carlos Seabra
Casciano José Vidal
Daniela da Rocha Paes Peres
Denise Valente
Edson Bueno de Camargo
Eduardo Lunardelli
Enio Barroso Filho
Estela Tiemy

Gilberto Nascimento
Hector Babenco
Jonas Alves dos Santos

Leni Vicari
Luiz Orquestra
Maria Geni Ventura
Mauricio Kus
Monica Magaldi Suguihura
Nelson Gomes
Olívia Maia Barcellos

Olívia
Patrícia Urdiale
Roberta F. de B. Gomes Chies

Roberto Gobatto

Rodrigo Manzano
Sergio Pinheiro Lima
Weber Batista de Oliveira

Vivaldi Cunha Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era 1990. Eu uma recém aceita na faculdade de comunicação. Cheia de planos.

Um dos meus planos era conseguir um emprego bacana na área para começar a caminhada rumo à escolha da profissão que fiz. Para minha sorte ou por força do destino, seis meses depois de entrar na faculdade consegui o trabalho, aliás, consegui o CHEFE!! Tive o imenso prazer de aprender durante alguns anos o que o banco da faculdade não ensina: a experiência!

Trabalhei com o Carlito do início ao fim da faculdade e mesmo depois de concluí-la ainda fiquei com ele por mais dois anos. Meu mestre, o grande homem Carlito Maia. O Carlitão que mandava eu escrever textos e guardá-los na gaveta e, no dia seguinte, pedia para eu ler o que havia escrito. E emendava: "vc. acha mesmo que está bom? Faça de novo". E assim foram os anos...

Nunca enviei tantas flores, nunca redigi tantos bilhetes de carinho, de esperança, de parabéns. Aprendi lições que, certamente, nunca sairão da minha memória, da minha vida.
Como ele costumava dizer "por ontem, por hoje e por sempre"...

Até hoje quando falo dele fico emocionada. Tive o privilégio de aprender sendo desafiada o tempo inteiro. Ele me instigava a melhorar sempre. Exigia. Queria mais e mais... E aos poucos percebi que a vida é assim nos cobra atitude, coragem, perseverança...

Ao mesmo tempo, o Carlito era de uma doçura ímpar... Um homem cercado de conhecimento, de pessoas interessantes, Cercado de GENTE!!!

Sofrida, deixei de trabalhar com ele em 96. Tive que colocar ainda mais em prática tudo o que ele me ensinou.

Em 2000, à época do lançamento do Troféu Carlito Maia de Cidadania, tive a honra de reencontrá-lo em uma noite memorável no Teatro São Pedro. E lá estava ele... cercado de amigos, de familiares, de fãs e de gente que como eu fez planos, apostou na sorte e sem jogar na loteria acertou o passo e caiu na trilha de Carlito Maia. Naquela noite, no Teatro São Pedro, não trocamos palavras, apenas olhares.

Quando fui cumprimentá-lo, foi inevitável. Olhei nos olhos dele e disse: Parabéns, Carlito! E ele apenas sorriu, mas com o olhar mais significativo do mundo, tenho certeza de que me disse algo muito profundo. Algo que me ensinou uma outra lição: a de que uma vida é do tamanho do sentimento que se nutre pelas pessoas e do tempo que elas ficam em nossas vidas...

Na minha vida o Carlito será eterno. "Por ontem, por hoje e por sempre!"

Beijares e abraçares...

Patrícia Urdiale, São Paulo, SP 29.abril.10

 

 

Nos idos de 1988, fazendo um trabalho de colégio, entrevistamos Carlito Maia.
Que paciência ele teve! Três garotas de 16 anos, querendo falar sobre Jovem
Guarda. Três tontas, mas que sacaram no ato que estavam frente a um grande
cara. Que estava com a boca operada, coitado! Pontos na boca, pedia desculpas
e respondia todas perguntas. Acho que ainda existe este VHS, mal gravado,
mas especial.

Daniela da Rocha Paes Peres, São Paulo, SP 18.julho.09

 

 

Em meio de tantas lembranças, surgem aquelas que jamais se apagarão de nossas memórias. Lembro das reuniões, assembléias, das palavras de ordem... de toda retórica que embasava nossos encontros no PT e claro quando se tem a imagem desses momentos que não podemos lamentar mas agradecer, pois aqueles que tiveram a formação para a justiça, a luta pela igualdade, o olhar do coletivo a visão de que o outro é parte da gente pode-se dizer que ainda é um petista. Em meio a tantos devaneios de ira e amor, relendo os depoimentos ao Carlito, vi o nome da Bea... companheira de diretório do PT e de luta e com ela a lembrança do Carlito. Da figura bem humorada, a lembrança de seus últimos tempos nas assembléias, já numa cadeira de rodas, tão frágil e tão forte. O próprio antagonismo, pois sua meta de vida era a participação para a transformação que lhe davam força naquele momento tão difícil. Carregava seu lenço impunhando o tempo todo, o que lhe dava maior dignidade, compartilhando com seus companheiros aquele momento de sua vida. Eu não tive o privilégio da convivência mas tive a sorte de conviver com quem de perto o conheceu e transmitiu a singularidade de sua pessoa. Carlito, você representa a saudade dos dias de reflexão, não aquelas dos xaatos nem tão pouco dos xiitas mas as dos xeensíveis aos problemas sociais e atentos as mudanças necessárias. Ser de esquerda não e demodê, pois a igualdade e justiça não saem de moda, o que sai de moda é o ser humano desprovido da crítica e da ética.

Maria Geni Ventura, São Paulo, SP 15.abril.09

 

 



Eu não sou ninguém, mas era um menino metido a "liderzinho" de movimento estudantil quando, não sei se 1976 ou 1977, depois de mais uma daquelas passeatas estudantis fui com um grupo de amigos comer uma chuleta no "Sujinho" da Consolação. Aí um senhor alto e magro que estava sentado na mesa vizinha ao ouvir nosso assunto perguntou:

-"O que leva voces a fazerem passeatas?"

eu respondi: -"Desancar autoridades"

e ele: -"Me convidem pra mesa, sou um de vocês!"

Aquele homem se apresentou como Carlito Maia e daquela noite em diante descobri que o que fazíamos era o papel de protagonistas da história e não a platéia como ele ali nos ensinou. Depois disso encontrei o Carlito muitas vezes em encontros do PT e ele me dizia que também não se esquecera daquela noite no Sujinho. Devo muito ao Carlito por ter dedicado mais da metade da minha vida ao PT e espero também dedicar o resto. Dele também ganhei flores e um "calhamaço de vida" em forma de papel.

Enio Barroso Filho, São Paulo, SP 1º.dezembro.08

 

 



Como amigo do Carlito, estou postando no meu blog Drops Azul Anis uma
modesta homenagem. Repercutida no outro blog Varal de Idéias.
Parabéns pelo site. O Carlito está agradecido com a manutenção viva de sua
memória.

Carlito uma lenda!

Eduardo Lunardelli, Imbituba-SC 05.outubro.07

 

 



Aqui vai um abraço emocionado da secretária particular de Carlito Maia, no
período de Maio de 1998 a Agosto do mesmo ano.

Tempos idos que já não voltam, mas que deixaram uma marca em minha vida, ter
conhecido, convivido e trabalhado com este gênio da publicidade e pessoa da
mais alta nobreza inteior.

Um extraordinário homem, o qual sempre lembrarei.

Leni Vicari, Ribeirão Preto-SP 12.março.07

 

 



carlito dizia tudo com tanta propriedade que ate assustava, um dia ele me chamou em sua sala na haddock lobo 1397 onde tive o prazer de trabalhar com ele e me disse: meu filho vc vai se casar? eu disse que sim, ele entao completou e no casamento que se encontra a felicidade mais ai e tarde.

naquele momento nao entendi somente anos mais tarde pude entender o que aquele sabio queria me dizer,SAUDADES CARLITO OBRIGADO POR VC TER ME DADO O PREVILEGIO DE TER VIVIDO BONS 7 ANOS AO SEU LADO MUITA LUZ A VC ONDE ESTIVER

Gilberto Nascimento, São Paulo-SP 27.janeiro.07

 

 



Fiquei devendo uma visita...
mais ,quem sabe...te encontro no andar de cima!!!

Q Deus de Ilumine
Q Deus nos Abençõe

Obs.: Obrigado pelas FLORES que um dia de 1988 ,recebi...junto com cópias do teu trabalho que tenho guardado até hoje...

q DEUS te ilumine!!!
Vc eh meu verdadiro HÉROI!!!

Baita Bracito
Beijaires
Jonas

Até a vista grande amigo!!!

Jonas Alves dos Santos, São Paulo-SP 04.novembro.06

 

 



Nessa terra ta sobrando Duda e faltando Carlito.

Roberto Gobatto, São Paulo-SP 16.abril.06

 

 



Carlitinho, querido amigo! Sempre tão carinhoso e atencioso, o maior e mais querido amigo de meu pai, João Carlos Magaldi. Acompanhou, mesmo que de longe, meu crescimento e o nascimento de cada um de meus filhos, sempre se manifestando com o carinho e a criatividade maravilhosa, que era sua grande característica.

Um dia disse a ele, quando telefonou no meu aniversário, que ele tinha uma agenda perfeita, não esquecia nunca dos nossos aniversários. E, corrigindo minha desatenção, ele disse "não é a agenda, é o meu carinho e o meu coração!" Parabéns a todos vocês que, através deste site, procuram manter viva a alegria desta figura ímpar.

Monica Magaldi Suguihura, Bebedouro-SP 6.abril.06

 

 



Fiquei tão feliz em encontrar este site sobre o Carlito. Nós fomos muito amigos. Eu criei uma comunidade no Orkut para lembrarmos sempre dele. O endereço é http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1886399

Eu coloquei o endereço deste site para que todos possam conhecer melhor o Carlito.

Beijos
Bernadette

Bernadete Sobreiro Holveri, São Paulo-SP 20.abr.05

 



Nunca o conheci pessoalmente.

Mas sua delicadeza chegou até mim, quando fazia shows no começo do anos 90
em SP sempre recebi telegramas de Carlito. Por que será??? Acho que entendo
tudo quando leio seus escritos!

Saudade de mim! Saudade de Carlito!

Carlos Careqa, São Paulo-SP 7.nov.03

 

 



Desgraçadamente conheci Carlito Maia depois de sua morte, lamento profundamente pelo tempo que vivi sem a sua poesia.

Edson Bueno de Camargo, Mauá-SP 27.ago.03

 

 



Eu nunca vou esquecer dos anúncios que ele publicou no caderno de política da Folha, tanto na morte do Geisel, quanto na do Médici, dizendo: "POR UMA GRAÇA ALCANÇADA"

Denise Valente , São Paulo-SP 25.fev.03

 

 



Foi ele quem me ensinou o pouco que consegui aprender, era uma máquina constante, mas principalmente me ensinou que a dignidade espanta o medo

Luiz Orquestra, São Paulo-SP 23.jan.03

 

 



* obrigado pelo cartão!

Los hermanos sejam unidos
Esta e a ley primaria
Pois se entre eles se peleam
Os devoram los de afuera

Martin Fierro Primeiro poema épico argentino que deu origem ao lendário Gaucho das Pampas e figura emblemática da luta pela liberdade e a tolerância.

Beijos queridíssimos Malu, Maurício, Marquito, Luciana e Mariana. Carrego todos vocês no coração, e a Maria Helena também.

Viva a Vida!

Hector Babenco, São Paulo-SP 26.dez.02

 

 



Carlito Maia e eu nunca fomos apresentados oficialmente. Sou um moleque. Mas conheci Carlito Maia em uma ou duas reportagens que escrevi sobre ele, ainda que não pudesse entrevistá-lo dado o seu estado de saúde. E, por meio das palavras, dos textos que escreveu e dos depoimentos que ouvi sobre Carlito Maia sei que este foi o maior - e melhor - homem das comunicações (como ele gostava de se nomear) do Brasil.

Rodrigo Manzano, São Paulo-SP 14.jan.03

 

 



Amigo é pra essas coisas

Carlito Maia foi a seu modo e por um bom tempo, uma espécie de Grilo Falante da sociedade brasileira.

Conhecia bem o caminho de acesso à mídia, para onde enviava rotineiramente cartas, artigos, críticas e sugestões que pudessem diminuir as desigualdades, mesmo sabendo no íntimo que grande parte do seu esforço nessa direção seria apenas tentativa.

Como todo guru, Carlitão também tinha os seus, alguns sem a sua dimensão mas igualmente importantes para servir de sparring ao grande lutador.

Fui um deles. Tive esse privilégio que nasceu espontaneamente da nossa amizade, do respeito que mutuamente mantínhamos, dos ombros oferecidos para os lamentos.

Além dessa identidade espiritual, que não significava identidade absoluta de idéias, mas de lealdade ao expô-las, de carinho e atenção ao ouvi-las, de coragem para apontar discordâncias e exageros, realizamos no plano material algumas ações aproveitando a força e a necessidade das empresas que servíamos, procurando sempre colocar o público de ambas em primeiro lugar.

Assim nasceu o "Futeboys", um campeonato de futebol de salão ao ar livre para office-boys que trabalhavam no centro de S.Paulo e que já jogavam bola na Praça D.José Gaspar antes de pintar a idéia.

O DNA da promoção "O Corinthians vai ser campeão" também foi o mesmo, com um sãopaulino (o que teve a idéia) e um palmeirense (o que apoiou a idéia) querendo tirar da fila de 22 anos o então sofrido Timão.

Muitas outras ações foram desenvolvidas, facilitadas pelo gozo da nossa amizade, estopim para as coisas acontecerem.

Vieram as mudanças, deixamos nossas trincheiras compreendendo que não poderia ser diferente. O tempo que nos foi dado para aproveitarmos a coincidência da nossa admiração recíproca, estava terminando.

Foi bem aproveitado, fez história, beneficiou pessoas.

Ao completar 60 anos, idade que não nos permite mais certos arroubos e já com o distanciamento crítico dos melhores anos da minha vida, posso dizer sem medo de errar que Carlito Maia elevou a minha capacidade de entender e de tentar modificar o mundo.

Nessa tarefa, a qual não se propôs, contribuiu para que eu compreendesse melhor os meus próprios instrumentos de trabalho que são as palavras, capazes de amar e odiar, crescer e diminuir, fazer justiça e injustiças.

Sabendo manejá-las, como ele sabia, só depende de você. Palavra.

Armando Ferrentini, São Paulo-SP 13.jan.03

 

 



Parabéns a vocês quatro por preservar a memória do pai maravilhoso que tiveram.
Carlito, amigo durante 40 anos sempre foi figura de realce no mailing list de eventos que eu e Sarah (minha mulher) organizavamos, principalmente pré estréias de filmes.
Enquanto alguns "amigos" avisavam que não podiam ir e apareciam, outros confirmavam e não vinham, seu pai - sempre galante e gentil - enviava flores para minha casa com um bilhetinho terno e carinhoso, agradecendo o convite e fortalecendo a amizade que nos unia.
Vocês acreditam que existiam alguns babacas que assistiam o filme e na saída vinham dizer que não gostaram do filme, reclamando porque os convidei para perderem seu tempo?
Carlito Maia...saudades...amor...carinho...Saudades

Mauricio Kus, São Paulo-SP 13.jan.03

 

 



De memória não tenho muito conteúdo. Mas gostaria de deixar neste carlitório, meus infinitos agradecimentos aos "fazedores" deste site, cheio de vida. Obrigada.

Estela Tiemy, São Paulo-SP 10.jan.03

 



CarliPTo Maia, mesmo conhecendo-o tardiamente, e através de sua obra, o que, confesso, gera mais entusiasmo e reconhecimento, deixo aqui o registro da nova geração, que você ajudou a formar, assim como quem não quer nada, fazendo. Agora que o Lulélá você parece mais presente aqui, o mundo só agora chega onde você sempre esteve. Muito prazer em conhecê-lo, volte sempre, apareça.

viva.

viva o sonho.
viva o carlito.
viva o pt.
viva o lula.
viva o brasil.

viva.

Vivaldi Cunha Filho, São Paulo-SP 29.dez.02

 



Eu tive a alegria de conhecer o Carlito Maia. Vi ele poucas vezes, mas não vou esquecer nunca estas ocasiões. Apesar de mal me conhecer (como pai da Antonia, amiga da Olívia), sempre me reconheceu (me comprimentando), nas vezes em que nos encontramos na casa da Malu sua filha ou na sua própria. E mais: sorria, alegre. Quando já doente, sem falar, ele me olhava e comunicava com os olhos o que a boca já não podia articular. Tenho saudade dele. Este site é uma lembrança bonita que até emociona.

Antonio Malta, São Paulo-SP 20.dez.02

 



Contra a correnteza


Esta história aconteceu no ano de 1948, começou em são Paulo, mais precisamente, no segundo andar de um prédio de esquina, no apartamento nove.

A luz da manhã entrava pela fresta aberta da janela, atravessava a garrafa sobre a mesa para tocar nos olhos de Carlito. Junto da garrafa ficava a velha máquina de escrever, o cinzeiro sujo e o par de botas engraxadas. Carlito se levantou e como fazia todos os dias, abriu a porta do quarto, atravessou a sala, entrou na cozinha e pôs água pra ferver. Depois, sentou-se no sofá e abriu o jornal que comprara de madrugada, antes de ir dormir. Ao terminar os editoriais, dobrou as páginas em preto e branco e voltou à cozinha, encheu o coador, esquentou uma caneca usando a mesma água que molhou o pó do café e voltou para sua garganta com o gosto amargo de sair dos sonhos. Escolheu uma banana do cacho em cima da pia e voltou para suas letras cheias de conteúdo. Foi então que reparando a data do jornal, lembrou-se do aniversário de sua mãe, que deixara em Minas. Carlito era um filho especial, sempre atencioso nunca decepcionou a amada e compreensiva mãe. E agora era a primeira vez em 24 anos que passaria uma data importante longe dela. Depois de um banho rápido voltou ao quarto e combinou a meia, a cueca e a camiseta vermelhas e vestiu sua calça bege e sua camisa xadrez de sempre. Calçou as botas e saiu.

Já era madrugada quando Carlito subia tropeçando as escadas que terminavam num corredor, onde no fim, depois de duas portas a que abria para sua casa. Foi direto para o quarto e para a máquina de escrever. Sentado, em frente a folha em branco, olhava para a rua vazia em sua fria escuridão: observou as folhinhas que se arrastavam pelo chão, levadas pelo vento. O mesmo vento que balançava a placa do barbeiro e que abria e fechava um portão barulhento em algum ponto distante na rua. Acordou com as bochechas doídas de terem passado a noite inteira sobre o teclado da máquina de escrever. Procurou o relógio, no bolso da calça pendurada no cabideiro, marcando duas horas. Calçou as botas e em um minuto já estava fora de casa. Atravessava o corredor quando deu por conta que havia deixado para trás, junto a sua porta, um elemento estranho ao seu cotidiano. Feita de couro, cheia de remendos. A mochila era fechada por um barbante que se amarrava numa medalha de prata, velha, mas ainda lisa. Carlito voltou, a pegou e levou-a até a escada, onde a deixou. Só a noite, chegando em casa, se deparou novamente com a mochila, de novo em frente a sua porta. Irritado, deu meia volta e levou ao porteiro. Disse-lhe que a mochila precisava de um dono.

Chegou, abriu o jornal do dia seguinte e leu algumas páginas, as que seu sono permitiu, então, dormiu. Terminou a leitura ao acordar enquanto se preparava para sair, mas ao abrir a porta e olhar para o corredor, antes mesmo de por os pés pra fora, e ver novamente a dita cuja, Carlito não pensou duas vezes. Abriu a gaveta da cômoda perto da porta pegou uma caixinha preta e a colocou no bolso lateral da mochila, que pôs nas costas. Partiu. Não trancou a casa, nem levou chave, saiu como se fosse dar uma caminhada, como se estivesse indo comprar cigarro, ou qualquer outra coisa que leve dez minutos e nada mais. Atravessou o portão do prédio, pisou na calçada, olhou pros dois lados e atravessou a rua. Sentia-se livre, determinado, não sabia aonde chegaria, mas era pra lá que carlito deveria ir! E foi. Subiu num bonde e de dentro dele, viu a cidade quase toda passar, foi até o final dos trilhos, onde o condutor finalmente descia e tinha seu descanso. Olhou em volta e por nada reconhecer pensou que qualquer rumo que tomasse seria adiante, no entanto escolheu meticulosamente a saída que seguiria, era uma rua estreita de paralelepípedos, com casas muito simples nas beiradas. No fim havia um muro e uma bifurcação. Carlito optou pela esquerda ao ver que mais à frente a rua embicava em trilhos de trem que, a partir dali se tornaram sua trilha. Andando sobre o ferro com a mochila nas costas, Carlito nunca olhava pra trás, queria se lembrar das coisas ainda inéditas, não as que já passaram. Queria conhecer e ter sempre a impressão de estar indo adiante. Já nenhum elemento urbano (além dos trilhos) compunha a paisagem, o caminho por onde Carlito andava estava cercado por um imenso canavial rodeado pelas montanhas verdes. Tudo isso, dentro do céu, azul.

Já há três dias seguia pelos trilhos, passara por casas e conhecera famílias muito parecidas umas com as outras. Uma noite sonhou com um rapaz, muito peculiar, no jeito de andar e no sorriso fixo, que vinha de longe e conforme se aproximava, perdia os traços. Quando já estava bem próximo, era só um borrão e dele saiu uma canção. Ao acordar, confuso, Carlito se despediu do casal que o abrigara e continuou seu caminho. Estava agora numa estrada de terra poeirenta, debaixo de um céu coberto de nuvens carregadas. Seguia em frente no caminho que parecia que nunca ia acabar. Chutava as pedras que encontrava e andava cada vez mais devagar. Quando não agüentava mais, já tinha vagado por tanto tempo, sentou-se numa pedra e começou a chorar. Chorou e quando já estava com os olhos secos de lágrimas, cansado de soluçar, já encolhido no chão, as nuvens carregadas despencaram todas sobre seu corpo. A água ficou caindo e a terra foi virando lama que foi cobrindo Carlito da cabeça aos pés. Esticou os braços e as pernas, sentia o corpo inteiro tocando o chão, a lama o cobrindo, a chuva batendo no nariz, nas mãos, na testa. Ficou lá deitado até a chuva parar, e quando ela parou, ele levantou e foi embora. Já era fim de tarde e estava anoitecendo. Carlito avistou no fim da estrada uma floresta, e ao se aproximar mais, viu o como era densa. Mesmo assim embrenhou por ela e seguiu sua rota. Quando já era noite e a coruja liderava o coro dos animais, a lua aparecia entre as copas das árvores, Carlito viu ao longe uma luz, a seguiu e chegou numa casa. Carlito atravessou uma parte de vegetação mais baixa, que parecia ser uma horta e bateu na porta dos fundos da casa. Uma mulher de cara fina ao abrir a porta expressou um olhar de pena do coitado que estava perdido, mas era um olhar que sabia o que estava vendo, como se estivesse vendo o que e já a ela havia acontecido, ela o recebeu e o mostrou uma cama já arrumada num canto da casa. Digo da casa, por que era só aquilo o que tinha lá, a casa, sem paredes dividindo nada, também pudera, era tão pequena que realmente só cabia a cama e o fogão no outro canto. Carlito deitou na cama e olhou o teto de palha. Dormiu. No dia seguinte notou a falta da mulher, mas não se importou, foi até a horta e viu que as árvores em volta eram de frutas, comeu muitas, guardou um pêssego no bolso da calça e foi embora. Foi difícil decidir partir, Carlito ficaria lá pelo resto da vida. Mas não queria pensar nisso, queria levar a mochila, estava tão convencido de que era a melhor coisa a fazer que teve força para vencer a vontade de ficar. A mata depois daquele pedaço era muito mais tranqüila, então Carlito foi calmamente atravessando-a até que uma hora se deparou com um rio e do outro lado do rio havia um campo enorme. Sentou-se com os pés na água e tirou, pela primeira vez desde que a pôs, a mochila das costas. Do bolso lateral, tirou sua caixinha preta e nela pegou uma escovinha de engraxate. Pôs-se então a engraxar suas botas e quando terminou, comeu o pêssego. Jogou o caroço no rio, calçou as botas, levantou-se e atirou a mochila na água. Então pensou que para voltar pra casa teria de subir o rio. E subiu. Contra a correnteza.

Olívia Maia Barcellos, São Paulo-SP 19.dez.02

 



Não me lembro de ter ouvido meu avô falar comigo, não conheço sua voz. as vezes fico imaginando como seriam os últimos anos da vida dele (os meus primeiros), se ele estivesse fora da cama e falando em alto e bom som! como nas histórias que ouço minha mãe contar. Eu não vivi histórias com meu avô, mas faço o possível para que a minha história continue a dele e para que o meu grito não deixe o dele morrer, nunca!

Olívia Maia Barcellos, São Paulo-SP 18.dez.02

 



Quando vi esse espaço dedicado ao querido "Tio Carlito", fiquei muito emocionada. Lembrei-me de muitas coisas, principalmente das incansáveis tardes, inclusive com o Marquito, na casa de meus pais - Nelson e Lorna - na Granja Viana (SP).

Deixo aqui meus beijares e abraçares ao inesquecível Tio Carlito.

Da sua, "rata branca".

Roberta Fonseca de Barros Gomes Chies, Rio de Janeiro-RJ 17.dez.02

 



sou formado em comunicação pela puc-rj. mas tudo que aprendi sobre a matéria foi com meu guru e compadre magaldão. mas tenho certeza absoluta que magaldi se inspirou sempre no carlito. carlito era o grilo falante do barba. foi muito bom ter convivido com ambos.

Nelson gomes, são paulo-sp 17.dez.02

 



Maia Carlito, Maia!

Weber Batista de Oliveira, Belo Horizonte-MG 17.dez.02

 



Passarinho da boa sorte!

...fiquei muito, mas muito feliz mesmo de poder encontrar este espaço dedicado ao Carlito.

Ia o ano de 1988, eu tinha acabado de casar, e estava montando minha primeira exposição individual de pinturas.

Estava esperando também meu primeiro filho, Gabriel nascer. Época de muita ansiedade, alegria e angústia.

No dia da abertura da exposição, à tarde, eu estava terminando de pendurar os quadros, quando entram na galeria aquelas maravilhosas rosas vermelhas acompanhando os escritos de Carlito que durante tantos anos deixei em minha cabeceira e lia antes de dormir, como se fossem pílulas de esperança. Esse gesto do Carlito nunca esqueci. Naquele momento era a coragem, carinho e impulso que faltavam; poção mágica de Asterix!! Doce Carlito.

É como quando você está com o olhar perdido em algum lugar, pensando em alguma coisa importante, se perguntando faço ou não faço, sim ou não, e de repente pousa um passarinho bem perto de você, dá uma olhadinha desejando boa sorte e voa feliz. Era o que faltava para a decisão. É como o recado de um anjo.

Dessa maneira sempre lembro do Carlito. Terminada a exposição deixei na casa de Carlito uma pintura minha de presente. É uma paisagem bem colorida e grande que espero tenha deixado Carlito contente.

Carlito, aonde estiver, muito obrigado e um baitabracito do Sérgio!!

Sergio Pinheiro Lima, São Paulo-SP 17.dez.02

 



Lula-lá é Carlito-cá

Quando, à primeiro de janeiro de 2003, Lula da Silva tomar posse no cargo de Presidente do Brasil, o mais importante cargo da política brasileira, lá estará também o espírito do amigo genial Carlito Maia.

O apelido Carlito, referência clara ao personagem de Chaplin, tinha a ver também com o seu tipo franzino, olhos acessos, sorriso sincero, até um tanto tímido. Guardava lá dentro um homem de rara personalidade e bom caráter. Melhor: bom, não. Excelente caráter.

Carlito era um homem sem medo, daí talvez até ter surgido uma das suas sensacionais frases criadas para o PT: "Sem medo de ser feliz". Profetizava mais uma vez, naquele tempo, o sentimento que estaria invadindo o povo brasileiro no pleito recente. Mas, não ficou somente aí não. Antes, num artigo que escreveu para um jornal do Partido dos Trabalhadores, já havia declarado: "PT, I e único". Também essa: "Ser petista é ter uma paixão definitiva".
Falou ainda sobre o presidente eleito: "... o nosso companheiro número 1, Lula, inspirador e fundador do partido (que não é do Lula, ele é que é do PT)...".

Também dizia mais sobre o PT: "Existem, sim, tendências, pretendências, desistendências no interior do Partido, abrigadas sob o generoso guarda-chuva vermelho-e-branco. Democracia é isso aí, bichos: "a arte da opção entre o desagradável e o desastroso". E continuava explicando como é o PT: "Desagradável é (um pouco) o democratismo - excesso de reuniões, discussões cansativas e repetitivas, um pé no saco"... Ele próprio completava: "...Desastroso (demais) é o fascismo, imposição de idéias de cima para baixo"... 

Falava do tempo das derrotas: "Pois eu prefiro perder com as bases a vencer sem elas. Não admito a ditadura de um sobre todos, nem a de todos sobre um. Vivo livre e solitário, como uma árvore, porém, solidário, como uma floresta. E para mim não há nada mais socialista - nem mais livre - do que uma boa democracia". E continuava, pregando o seu desejo: "Para que a democracia plena seja alcançada, contudo, deve-se respeitar a opinião de cada um sobre o que irá afetar a vida de todos. "Nenhuma corrente é mais forte do que o seu elo mais fraco". Tudo o que precisamos é uns dos outros. Venha ser um dos seus. Teje livre!"

Explicava como era, no seu entendimento o militante partidário do PT: "O petista é assim: em cada cabeça uma sentença. Não há, nem poderia haver num partido de gente consciente, lúcida, um pensamento monolítico, hegemônico, "crê ou morre". E finalizava: "Porque o PT há-de-ser, sempre, o reflexo da vontade do conjunto dos seus militantes, brava gente. E dos simpatizantes, como eu".

Fechava sua mensagem com um misto de crença e descrença: "PT, utopia ao alcance do meu voto - eu te amo!". Esse era o grande amigo Carlito Maia, aquele que assinava: "Carlito Maia - petista até morrer".

E, para encerrar repetindo o personagem Chicó, n'O Auto da Compadecida, de Araiano Suassuna, "só sei que foi assim!"

Casciano José Vidal, Natal-RN 17.dez.02

 



Fico feliz pela iniciativa de vcs (filhos) criarem um site em memória do grande Carlito Maia.
Parabéns.

Aparecido Araujo Lima, São Paulo-SP 16.dez.02

 

 

 



Tinha eu uns 15 anos quando conheci ao telefone o Carlito. Ele era amigo do meu pai e ligava de vez em quando para sua agência de publicidade, onde eu trabalhava. Era uma fase difícil para ele, pois andava meio pirado...

Uns anos mais tarde tive novo contato com ele através de seus bilhetes acompanhando cravos vermelhos: eu atuava no Centro Cultural 25 de Abril e ficara encarregado de convidá-lo para um show comemorativo do aniversário da Revolução dos Cravos. Nesse aniversário e nos outros que se seguiram ele nunca apareceu em pessoa, mas suas flores eram um dos pontos altos do evento!

Assim foram mais uns anos e, envolvido em outras militâncias culturais e democráticas, sempre vi a participação do Carlito através de sua floral manifestação e os bem-humorados e criativos bilhetinhos, com recados curtos dizendo o principal, se fazer sempre presente.

Acabei por conhecê-lo pessoalmente, finalmente, no final da década de 80, quando ajudava na criação da Associação Cultural Agostinho Neto. Achei que já o conhecia há muito tempo, e era verdade!

Só o vi novamente já com a doença mais avançada, atrapalhando até sua fala, mas ainda no seu escritório de trabalho, sempre fazendo do humor sua ferramenta de mexer com a vida e com as cabeças dos que nela vivem!

Carlos Seabra, São Paulo-SP 15.dez.02