GERALDO CASÉ, ator ABRAÇARES E BEIJARES
Meu pai me confessava: "Estou ficando velho. Venho perdendo meus parceiros de pôquer..." Esta sensação de perda, enquanto o tempo
passa, nada tem a ver com nostalgia. Ao invés dos parceiros de pôquer sinto, também, que as minhas rodas de carteado estão se transferindo para outros lugares e que para estes lugares estão se transferindo os mais queridos e amados companheiros. De repente me vejo fazendo constantes
obituários e isto não me agrada. Os bilhetes, cartas e lembranças, aqui, sobre minha mesa, denunciam a sua presença amável e inteligente e mais do que tudo fraternal. A mais tocante delas é uma extensa confissão relatando as suas lutas, e, a mais enternecedora é a sua derradeira mensagem em que usa duas palavras deliciosamente doces de seu vocabulário particular. Abraçares e beijares. Adotei os dois vocábulos para mim pois, com isto, sempre que os escrevo estou falando alguma coisa de Carlito. Ele que foi inventivo criador na publicidade e na televisão, recriava nomes e os fazia divertidos e novos. Em seus escritos as letras se reencontravam e refaziam significados. Sinto que ficarei esperando, a qualquer
momento, a chegada de um seu bilhete. Em São Paulo, todos reunidos, discutíamos os caminhos e as soluções para as conturbações freqüentes de nosso país. Nessas pendengas ia-se da esquerda do PT ao ponta-esquerda do Palmeiras na eterna sem-cerimônia das roda de amigos que cercava Carlito. Quando as coisas se acerbavam, mesmo veemente, seu tom era apaziguador. É inesquecível sua intervenção num diálogo, um pouco mais quente, entre dois litigantes, quando um deles referindo-se a um dos "comunistas", presentes, referiu-se a "esquerda festiva". "- Calma nada de "esquerda festiva! Aqui é tudo no vaPT- vuPT!" Era o slogan que criara para o partido do Lula! E, com isto, abriram-se sorrisos e arrefeceu-se o litígio entre abraçares e beijares.
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