ELZA FERREIRA LOBO, Jornalista
Revista Revés do Avesso – agosto de 2002

TRIBUTO À CARLITO MAIA

Conheci Carlito Maia, na década de sessenta mais precisamente no início de 1965, quando convidada por Roberto Freire integrei a equipe que viria a criar poucos meses depois um grupo de teatro de estudantes que se consolidaria como "Teatro dos Universitários da Católica" – TUCA.

Eu vinha de experiências exitosas do CPC da UNE e do MCP de Alfabetização de Adultos com a utilização do Método Paulo Freire.

As duas experiências foram propostas vividas pelo movimento estudantil antes do golpe de 1964.

Em 1965 os estudantes da PUC, encamparam a idéia e a levaram para o DCE que adotou a iniciativa.

Com o apoio do diretor da Comissão Estadual de Teatro, ligada à Secretaria de Estado dos Negócios do Governo foram realizados cursos de teatro e leituras de textos para que os alunos pudessem montar suas peças teatrais.

Com esta iniciativa e o patrocínio da Secretaria concretizou-se a formação do Teatro dos Universitários da Católica – TUCA.

Em abril de 1965 havia cartazes espalhados pelo campus da PUC anunciando "O TUCA VEM AÍ", slogan criado pelo publicitário Carlito Maia que à época possuía com seu sócio Magaldi a Agência Magaldi-Maia.

Profissionais de teatro ministraram cursos como Eugenio Kusnet e Alberto D’Aversa sobre "Métodos e Interpretação" "História do "Espetáculo" e "Introdução as Técnicas Teatrais".

Os apelidos de "Tremendão" para Erasmo Carlos "Ternurinha" para Wanderleia e a frase "É uma brasa mora" para Roberto Carlos foram batismos do irreverente Carlito.

Criada em 1963 e inovadora na descoberta e lançamento de jovens talentos que formariam a "jovem guarda" através dos programas da Rede Record.

A repercussão superou todas as expectativas. Planejamos 30 vagas e inscreveram-se 350 estudantes. Foi necessário montar turmas pela manhã, tarde e noite.

Quando o TUCA foi convidado a participar do Festival Mundial de Teatro Universitário em Nancy – França em 1966, o convite veio através de Carlito grande incentivador e estimulador do nosso trabalho. Carlito era um apaixonado pelo texto de João Cabral de Melo Neto, pela música de Chico Buarque, pela cenografia de Ferrara e a direção de Silnei Siqueira, mas sobretudo pela criatividade e direção artística de Roberto Freire, seu grande amigo, e quem juntava a todos...

Carlito viveu intensamente a carreira do TUCA contribuiu para que os universitários pudessem viajar para o Festival colaborando com a organização de shows e espetáculos de artistas conhecidos como Elis Regina, Dorival Caymmi, Vinícius de Morais, Geraldo Vandré e outros.

Nas reuniões na casa de Roberto Freire e nos ensaios no prédio do TUCA em construção e às vezes no Auditório do Convento dos Dominicanos na Rua Caiuby, onde creio que ali chegamos através de frei Carlos Josaphat que junto com Roberto Freire havia participado do jornal "Brasil Urgente". Discutíamos nosso trabalho e Carlito sempre aparecia.

Carlito vibrava com o sucesso do TUCA na França mas foi em Portugal onde juntando-se ao grupo através de correspondência projetava sua raiva contra a repressão brasileira, que começava a se intensificar a cada dia.

Quando regressamos da viagem com o prêmio mas com muitas dívidas, outra vez foi Carlito Maia o salvador. Criou a "Ordem do Tucano", diploma vistoso cujo preço simbólico era equivalente a um salário mínimo. Também conseguiu três passagens da Air France para colaborar com o grupo e conseguiu a venda para a Philips dos direitos autorais da trilha sonora da peça para a gravação de um LP que sanaria as dívidas do grupo.

Através de Carlito conheci sua irmã Dulce Maia que fazia parte do Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Correa, do qual também participava Frei Betto.

Durante o período autoritário reencontrei Betto e Dulce, o primeiro nos porões do DEOPS e Dulce no Presídio Tiradentes.

Carlito visitava Dulce e carinhosamente agradava a todas nós – presas políticas – com deliciosos "pirulitos de sorvete"- os picolés -.

No Chile, uma vez mais, o nosso querido amigo Carlito, nos animava através dos seus famosos "bilhetinhos".

No retorno do exílio novamente o carinho de Carlito com as suas freqüentes flores em charmosos buquês sempre acompanhadas de mensagens carinhosas.

Na década de 80 com a criação do Partido dos Trabalhadores o Carlito criou os slogans "oPTei", "Lula-lá", "Sem medo de Ser Feliz", mas também continuou prestigiando todos os Atos que se realizavam com afirmações de liberdade.

Em 28/10/1991, durante o Ato "Um Grito contra a Miséria", realizado no TUCA para marcar os 25 anos da encenação de "Morte e Vida Severina" foi lida a Carta às Elites redigida por ex-alunos da PUC e uma vez mais foi Carlito quem criou o slogan "Democratas Anônimos" com o barrete da Revolução Francesa e o "Grito contra a Miséria" com o Fradim do Henfil.

Continuei conversando com Carlito através de bilhetes e um dos últimos foi no encontro em homenagem à frei Tito de Alencar Lima, nesta Igreja dos Dominicanos onde hoje lhe rendemos tributo.

Carlito gostava muito de minha mãe, chamava-a carinhosamente de Donana. Minha mãe juntamente com Terezinha Zerbini e outras mulheres fundaram em 1975 o Movimento Feminino pela Anistia que muito contribuiu na luta pela reabertura política em nosso país.

Ao completar 80 anos Carlito ajudou a organizar-lhe uma belíssima festa, realizada no Colégio Equipe, aquela época na rua Martiniano de Carvalho, e enviou-lhe um buquê com 80 cravos vermelhos, simbolizando na resolução dos cravos a sua luta na defesa permanente da dignidade dos povos.

Em 84, Donana foi indicada para figura símbolo do bairro de Pinheiros e Carlito uma vez mais enviou-lhe o seguinte bilhete:

"Para mim, Donana Lobo é mais que "a figura símbolo de Pinheiros" porque ela representa o que há de melhor na humanidade toda.

Grande figura é apelido, Donana!

Com beijares e abraçares, o Carlito

Não vim ao mundo para me resignar
(Máximo Gorki)"

Carlito estava sempre presente em todos os atos que ocorriam em nossa cidade, sempre chegavam as flores com as mensagens carinhosas "uma vida não é nada, com coragem pode ser muito".

Em 84 abraçou a luta contra toda sorte de crimes cometidos no Brasil.

Sentia um enorme desânimo diante tantas e tantas provas de ignorância, de burrice, de safadeza".

Colocou-se ao lado de Catarina Koltai quando esta durante campanha eleitoral manifestou-se a favor da descriminalização da maconha.

Mas também assinou a luta pela criminalização do álcool e do tabaco, vítima que era dos dois agentes do genocídio da Humanidade.

Esse é o Carlito que nos deixou no último dia 22 de junho.

Carlito através de sua doçura e simplicidade também ajudou a criar frases e slogans de campanhas para candidatos de outros países, mas sempre para pessoas comprometidas com a justiça-social...

Como disse Kotscho, no Pasquim, "Carlito veio ao mundo a serviço, sim - a serviço da santa ira, da irada indignação e, ao mesmo tempo, da doçura de quem espia o mundo pelo buraco da fechadura como um menino travesso".

Até breve Carlito!