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Ao longo da vida, Carlito Maia foi colaborador regular de alguns veículos de comunicação. Entre jornais e revistas que publicou suas colunas estão a Folha de S. Paulo, Diário Popular (onde escreveu sob o pseudônimo de P.Q.P., iniciais do fictício Plínio Quartim Penteado), Aqui São Paulo (jornal criado por Samuel Wainer onde assinava a coluna Carlos, o chacal), Jornal da Cut, o boletim petista Linha Direta, o caderno de Propaganda & Marketing do jornal Gazeta Esportiva (dirigido pelo amigo Armando Ferrentini) e Gazeta de Pinheiros.

Folha de S. Paulo
Jornal da Cut
Linha Direta
Gazeta Esportiva
Gazeta de Pinheiros

Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Jornal da CUT, novembro de 1991

A gente lê jornais / ouve rádio / vê TV - e fica deprimido, no mais baixo astral. E isso vira-se contra nós, em favor de quem está no poder, os insaciáveis. E esmorecemos na luta pela vida a que temos direito.

Especialmente quem - como nós - nada quer dos outros, mas exige o que é seu. Vamos dar fim a essa tristeza, Companheiros? Vamos recuperar a alegria de viver, com bom-humor, para abrandar um pouco a dureza do tempo que estamos vivendo? Minha proposta: contra o pessimismo da Razão, vamos contrapor o otimismo da Vontade. Sim, da Vontade que é apanágio dos fortes de caráter e espírito de luta. Gente como a gente, Companheiros! Tudo o que precisamos é uns dos outros.

Lembro o livro de Tão: "Você não pode evitar que as aves da tristeza sobrevoem a sua cabeça, mas tem de impedir que elas façam ninhos em seus cabelos". E um lembrete do escritor australiano Morris West: "Neste exato momento penso que - maior que o medo que vos tenho - é o medo que tendes, senhores, de mim". Evite acidentes: faça tudo de propósito. Boa sorte, Companheiros!

Carlito Maia não é uma hiena, mas prefere o riso ao choro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Gazeta de Pinheiros, outubro de 1990


A igualdade 100%
Homens e mulheres, negros e brancos, ricos e pobres, héteros e homos, ateus e crentes, civis e militares - somos todos iguais na hora de votar, cidadãos! O voto não tem cor, nem cheiro. E é secreto: ninguém conhece o de ninguém. Seu voto vale tanto quanto o meu. E vice-versa. Ah, quando todos souberem disso aqui - vamos acabar caindo numa Democracia!

Carlito Maia informa: está na hora de jogar Maluf na lata do lixo da História.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Folha de São Paulo
, caderno Folhinha, sem data

Sonhar não é proibido (e faz bem)
Não, Marquito não sentia inveja dos meninos que tinham violões de verdade. Porque ele vivia sonhando que tinha um também. E fazia vibrar suas cordas invisíveis, com o rosto iluminado e os olhinhos brilhando de emoção verdadeira.

Havia quem achasse ser o Marquito meio lelé-da-cuca. Claro, era gente que não tinha imaginação suficiente para saber que aquele violão só podia ser visto (e ouvido) por outros sonhadores, que nem o Marquito.

Essas pessoas ignoravam também que ele não se conformava com a realidade que havia, vivendo a sonhar com a realidade que devia haver.

Tendo seu violão imaginário como bandeira, Marquito via um mundo novo. Um mundo em que as coisas são das pessoas que as entendem.

E não só das pessoas que podem comprá-las (mesmo sem as entender), apenas por terem dinheiro. Ah, quanta gente tem um violão na sala de visitas, servindo de enfeite, sem tocá-lo nunca!...

E lá ia Marquito dedilhando seu violão de sonho, dele tirando as músicas mais lindas que o seu coração compunha. Depois, limpava-o cuidadosamente com uma flanela bem macia feita de nuvens. E o guardava com carinho numa capa cor de céu azul azulzim todo estrelado.

Daí ele pegava seu violão único, mais que exclusivo, e o escondia debaixo da escada secreta que usava para subir ao seu paraíso particular.

As pessoas que não entendiam Marquito, tadinhas delas, até pensavam em levá-lo a um psicólogo para saber: "Será que ele tem alguma coisa?", onde ouviriam esta resposta:

 "Não, ele não tem uma coisa, mas sonha com ela e, assim, faz de conta que a tem."

Um dia, os que só sonhavam quando dormiam resolveram dar um violão de verdade para o menino que sonhava acordado. Ao recebê-lo, Marquito abraçou-se ao violão, comovido, e disse: "Obrigado. Agora tenho dois."

Carlito Maia

 

 

 

 

 

 

 

 


Linha Direta

Uma vez PT, sempre PT
Ser petista é ter uma paixão definitiva. É padecer no paraíso toda a vida e mais nove meses. Se saio do PT, que outro partido poderia ser o meu? Há tantos! Você chuta uma lata na rua e saem dez de baixo. "Partidos" com donos (deviam enquadrar essa gente por formação de quadrilhas). Cegos seguindo a seus cães. Pior ainda: cães indo atrás de seus cegos. Há mais outros partidos... sem comentários. Nada representam nem significam para mim.

"O PT I e único"1, não: nele só há voluntários, gente firme e decidida, apaixonada, que sabe das coisas. Que nada quer dos outros, mas que exige o que é seu. Quer dizer, então que o PT chegou à perfeição? É "menas" verdade, pessoal. Ele é composto por seres humanos, com todos os defeitos e virtudes: xiitas e xaatos, xiiques e xuucros, xaaropes e xeeretas. Mas todos vão tirar as cismas numa boa, democraticamente - no I Congresso do Partido dos Trabalhadores. Acertar os ponteiros, corrigir rumos. O PT dá trabalho, se dá! Mas, nele, ninguém é melhor do que ninguém. Nos outros "partidos" há "líderes", e é sabido: líderes dão as costas aos liderados: eles na frente, o rebanho atrás. Não, no PT só temos companheiros, irmãos de fé. Lutando lado-a-lado, ombro-a-ombro, com muita alegria. Sem medo de ser feliz. E o nosso companheiro nº 1, Lula, inspirador e fundador do partido (que não é do Lula, ele é que é do PT), já avisou: no Congresso - é proibido proibir. Que cada um, pois, bote a boca no trombone, dizendo o que sente e pensa do Partido (aliás, a primeira novidade na política tupiniquim, desde 1500 mais ou menos). Ocorre que ele nasceu de um jeito e estava crescendo de outro. Tem nada, não: é de pequenino que se torce o destino. O que faremos no Congresso. Porque o PT há-de-ser, sempre, o reflexo da vontade do conjunto dos seus militantes, brava gente. E dos simpatizantes, como eu. PT, utopia ao alcance do meu voto - eu te amo!

O petista é assim: em cada cabeça uma sentença. Não há, nem poderia haver num partido de gente consciente, lúcida, um pensamento monolítico, hegemônico, "crê ou morre". Existem, sim, tendências, pretendências, desistendências no interior do Partido, abrigadas sob o generoso guarda-chuva vermelho-e-branco. Democracia é isso aí, bichos: "a arte da opção entre o desagradável e o desastroso". Desagradável é (um pouco) o democratismo - excesso de reuniões, discussões cansativas e repetitivas, um pé no saco. Desastroso (demais) é o fascismo, imposição de idéias de cima para baixo. Pois eu prefiro perder com as bases a vencer sem elas. Não admito a ditadura de um sobre todos, nem a de todos sobre um. Vivo livre e solitário, como uma árvore, porém, solidário, como uma floresta. E para mim não há nada mais socialista - nem mais livre - do que uma boa democracia.

Para que a democracia plena seja alcançada, contudo, deve-se respeitar a opinião de cada um sobre o que irá afetar a vida de todos. "Nenhuma corrente é mais forte do que o seu elo mais fraco". Tudo o que precisamos é uns dos outros.Venha ser um dos seus. Teje livre!

*Carlito Maia - petista até morrer

1. Expressão entre muitas criadas por Carlito Maia para o PT: O PT primeiro e único.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A Gazeta Esportiva, 21/06/1987


Quatro Ases e Um Coringa
Para Olívia saber como era o País do seu avô...

Sou um cavalo bravo domado pela filha para ser cavalgado pela neta. Olívia nasceu de Malu e Joel no sábado em que Zico e Sócrates perderam os pênaltis contra a França. Pelo primeiro aniversário hoje, reproduzo "O País dos Dormentes", artigo que escrevi para a terceira página de um grande jornal que, todavia, não o publicou.

Não sei como será o Brasil do tempo de Olívia, mas quero que ela saiba como era isto aqui no tempo do seu avô, coitado. É este pobre presente para a neta nº1, a primeira, a única, a mais querida de todas. Sei que esta página será guardada até quando ela puder ler (e entender) o que aqui escrevo agora.

Deitado eternamente em berço esplêndido, o Brasil é o rei da dormência. E estaria importando 200 mil dormentes da Argentina, a 26 dólares cada. Para a Ferrovia do Ouro? Não, para mais uma reconstrução da Ferrovia do Aço, a interminável. Curiosidade: o dormente nacional (!) custa abaixo de 20 dólares a unidade - e tem a dar com o pau mas, pelo sabido, importar é a solução.

Lembra "Tanga", filme que o genial Henfil acaba de concluir, em que conta histórias da ilha da fantasia, onde os nativos exportavam seus próprios cabelos, para poderem importar ricas perucas. "O humor é a delicadeza do desespero", definiu Boris Vian. O super-homem existe e o nome dele é Henfil, revelo eu. A gente aqui exporta matas, bosques, florestas, selvas, toda a Amazônia, se der veneta, mas - importamos ... dormentes. Resultado: o geólogo Orlando Valverde, que preside o Centro Nacional de Defesa e Desenvolvimento da Amazônia, prevê que a "continuar o atual ritmo de desmatamento, Rondônia ficará sem suas florestas no próximo ano; Mato Grosso perderá as suas em 1989, o Maranhão em 1990, o Pará em 1991, o Acre em 1997, Roraima em 2002 e o Amazonas em 2003. O território do Amapá é o que está menos ameaçado: sua floresta deve durar até o ano 2059."

O Brasil pós-tudo da Inventona de 1º de abril virou uma Suicíndia, crueza cruel de Suíça das contas numeradas com Índia das turbas esfaimadas. Os números são de Cláudio Abramo: três milhões de supermarajás, 30 milhões de vítimas privilegiadas e 100 milhões de vítimas desgraçadas. Barril de pólvora "no capricho".

Pior: além de sermos um país sem memória, perdemos também a vergonha, um povo cuja capacidade de indignação foi dissolvida em decretos-leis, alguns até secretos. Fomos transformados em dócil rebanho, mansa manada. Povo bom taí: não tuge nem muge, tudo bem. Vai daí que engole toda sorte de atentados contra os seus direitos mais elementares, sem dar um pio.

O último general no Planalto pediu que o esquecêssemos mas não tá fácil: as ordenanças que deixou tomando conta do lugar deitam e rolam nos fofos tapetes da Nova Ditadura, digo, República. E promovem seu animado Baile da (Bras)ilha Fiscal, a Nova Realeza se divertindo tanto que nem percebe os sinais das ruas. Mergulhada num oceano de pus que reduz a lagoa o mar de lama de antigamente, a massa de vítimas principia a botar a boca no trombone, não dá mais pra segurar.

Já os grandes meliantes, com a impunidade total de que desfrutam - mais o princípio da "obediência devida" - não estão nem aí. Enquanto isso, nas periferias da vida, Rotas "vingadores" e "polícias mineiras" se encarregam dos pés-de-chinelo.

O prefeito da favela do Vergueiro foi claro: "O Brasil tem dois códigos - o civil, para os poderosos e o penal, para os miseráveis". Não é a toa que nos exterminamos nessa de "cada um por si e Deus contra todos". Queremos levar vantagens em tudo, ouvindo o dr. Gerson de Vila Rica (sumidade em enfizema e câncer do pulmão), nossos falsos malandros são abençoados por Macunaíma, Herói Supremo e Guia da Nacionalidade.

Graças a tanta sabedoria e inspiração, hoje o rico assalta o pobre no campo e é por esse roubado na cidade, belo negócio. No Brasil pós-64 o crime reina, impávido colosso. O castigo? Anda em vilegiatura pela Suiça, a conferir saldos. Jamais se viu tanta inocência nem tal pureza: a pátria amada é o céu dos anjos.

Mania de campeões, ganhamos A Maior Dívida Externa do Mundo. Por apenas. Já não se sabe de quantos bilhões: pegaram o que puderam e torraram onde quiseram, sem nos dar a mínima. E acham que auditoria é revanchismo.

Debaixo do tapetão "PMDB" escondem o lixo da ditadura, mais os detritos da "Nova República". Rabo escondido com o gato de fora, como diz Millôr, o ex-MDB (bons tempos) faz qualquer negócio para "disfarçar" sua condição de governo, de (má) Situação. Brinca nas onze. O dr. Ulisses preside tudo e o dr. Sarney se apraz em ser presidente (de honra) do partidaço que trocou l'espoir pour poire.

São capazes de forçar a aceitação de um papel que fará corar o que a junta militar (codinome "Luzia") deixou na horta. E proclamaram: "nova Constituição será a que o PMDB quiser". Não vai dar outra: uma constituição descartável, não uma razoável.

Mas tornemos à Fuferroabá (Fúria Ferroviária que Assalta o Bananão): é coisa de falido que se põe a detonar cartões de crédito,certo de que não vai pagar mesmo. E seria tão mais inteligente se procedessem à humanização dos trens do subúrbio que transportam milhões de párias aqui e no Rio! Qual, nem pensar!

Nossa gente é autoritária (sabe com quem está falando?) e pouco cordial, desmentindo as lendas. Brasileiro tem muito desejo e escassa vontade. É grande a diferença. Mal e porcamente, sobrevivemos à ditadura de Vargas, à era faraônica de JK, à ditadura militar, a esses autoritarismos todos. Firmamos a Declaração Universal dos Direitos do Homem mas a ignoramos solenemente. E dizemos querer que o Brasil seja uma nação de herdeiros, não de meros sobreviventes...

"Sempre houve - e ainda há - multidões de homens, mulheres e crianças a quem, pelo terror, a miséria e a mentira, se conseguiu fazer com que esquecessem sua dignidade natural, ou que renunciassem ao esforço de fazer com que os outros reconhecessem essa dignidade. Estas se calam. As vítimas que se queixam e cuja voz é ouvida, gozam, já assim, de melhor sorte." Do prefácio de René Maheu para "O Direito de Ser Homem", editado pela Unesco em 1972, ano internacional do livro.

Otto Lara Resende costuma dizer que nada vale Deus ser brasileiro porque alguns brasileiros, são deuses. Verdade. E são tais deuses que nos impõe ditaduras, novas repúblicas, planos cruzados, ferrovias de aço e de ouro.

Acorda, Brasil! O Terceiro Milênio vem aí.

PT saudações.

Carlito Maia

 

 

 

 

 

 


A volta por baixo
Carlito Maia

De dom José Cavaca(*), humorista inesquecível: "Criminosos brasileiros brilham na Inglaterra, cuja policia só está preparada para crimes inteligentes".

Verdade: somos especialistas em crimes burros, irreparáveis; tal a grandeza das perdas que acarretam. Sem falar da impunidade. Crimes contra a Pátria, contra o povo, contra a Humanidade. Como no tempo da Inventona de 1 ° de abril de 64, quando a ditadura militar deitou e rolou, sem que os criminosos fossem punidos e, em muitos casos, sequer identificados. Caso de Sete Quedas, hoje só uma saudade para os que conheceram aquela maravilha da Natureza, que foi por água abaixo, literalmente, porque os milicos no poder (e bota poder nisso) assim o quiseram. Resolveram (resolviam tudo) fazer a hidrelétrica de Itaipu, de parceria com os donos do Paraguai, e mandaram alagar tudo. O fim da picada. Em nome do sinistro binômio "segurança & desenvolvimento", que os levou também à loucura das usinas atômicas, feitas só para salvar da falência a indústria nuclear alemã, jogando fora (boa parte na Suíça) bilhões de dólares.

Os jovens que me honram com a sua leitura não fazem idéia do que foi aquele tempo, embora estejam sofrendo como todo mundo — as conseqüências do desvario do "Brasil potência". Ou onde vocês acham que teve inicio a rebordosa em que estamos, heim? E o pior é que a pusilanimidade aqui reinante botou uma pedra em cima da imundície e nunca mais se tocou no assunto.

Outro crime monstruoso, e igualmente irreparável: a morte de Henfil. Paradigma da dignidade, da coragem, do patriotismo, Henfil foi assassinado. Hemofílico, como seus irmãos homens, submetia-se a freqüentes (e caríssimas) transfusões de sangue para sobreviver. Numa dessas — em busca da salvação — encontrou foi a morte. Injetaram nele sangue contaminado pela Aids. Também em Chico Mário e Betinho, seus manos. Mas a viúva de Chico Mário acaba de ser reconhecida pela Justiça, que condenou a União e o Estado do Rio pelo seu desaparecimento. E, claro, também pelo de Henfil.

Mas o juiz teve uma recaída e não reconheceu o direito de Lúcia Lara, brava e digna companheira de Henrique por mais de dez anos, impedindo-a de fazer jus a indenização pela brutal perda sofrida. A verdade é que Lucinha não cogitou jamais de receber dinheiro em troca da vida de Henfil, o que não o traria de volta. Mesmo que — num acesso de loucura, dando uma de amoral nato — exigisse a execução dos responsáveis pelo crime nefando, não teríamos de novo o exemplar cidadão. Crime irreparável e, portanto, impunível. Mas Henfil acaba de dar a volta por baixo, se deu! Henfil vive! "Se não houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se não houver flores/ valeu a sombra das folhas/ E, se não houver folhas, valeu a intenção da semente". Suas lições não serão esquecidas jamais. Valeu, Henfil!
 

Outubro 1991

(*) - Dom Rossé Cavaca.

Para o Projeto Releituras