Como publicitário, Carlito teve uma carreira errática, repleta de momentos marcantes. A Jovem Guarda, criação da agência Magaldi, Maia & Prósperi, foi certamente seu mais expressivo feito. Houve ainda outras campanhas das quais se orgulhava, duas delas feitas para a TV Globo: "Guie sem ódio" e "O Corinthians vai ser campeão - a Globo garante!". Esta última foi feita em 1977, quando o time do parque São Jorge amargava um longo jejum de 24 anos sem títulos importantes. Naquele ano, Carlito criou um campeonato que seria disputado apenas por Corinthians de várzea ou de cidades do interior. Esse campeonato paralelo, vencido pelo Corinthians de Presidente Prudente, deve ter animado os jogadores do time do parque São Jorge que, naquele ano, venceria o campeonato paulista, ganhando de 1 a 0 da Ponte Preta na final, gol de Basílio.


Memórias
Revista Imprensa
Festa no céu

Tirando de Letra, de Carlos Queiróz Telles, Editora Best Seller
Minhocas do Carlito
(pág. 93)
Te cuida, camarada! (pág.105)
O Dedão de Jeová (pág. 107)
Maquiavel Maia de Souza (pág. 109)
Ataque a Saigon! (pág. 110)

Folha de São Paulo (19 de julho de 1968)
(Almanaque Miscelânea - Folha Online)

PubliciERRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Imprensa - novembro de 1991, p. 78

Das muitas histórias de suas duas passagens pela Norton, em 60 e 67, Carlito Maia lembra com carinho daquela tarde em que precisava de Cr$ 15 milhões (em valores da época) que faltavam para comprar uma casa. Ao chegar à Norton e cruzar com Geraldo Alonso, pois tinham sala no mesmo andar, o 7o, Alonso, intuindo problemas, perguntou se estava tudo bem. "Não", respondeu Carlito. "Preciso de 15 milhões para comprar uma casa". Alonso não titubeou. Ligou para a contabilidade e disse que soltassem um vale para Carlito com essa quantia, a ser descontada mensalmente, à base de Cr$ 500 mil por mês. Carlito, boquiaberto, disse: "Geraldo, 500 mil por mês são trinta meses. Você acha que eu vou ficar aqui todo esse tempo?". "Não interessa", respondeu Geraldo. "Dias depois, briguei com ele e fui embora. Um dia, chego em casa e encontro um recado para falar com o dr. Geraldo, na Norton. Era perto do Natal. Eu estava com o espírito natalino, mas não tinha grana, nada. Pensei: era só o que faltava. Fui até lá e desci no andar da contabilidade. Cheguei e o cara disse: o dr. Geraldo mandou dar esse dinheiro de presente para você. E assinei um papel. Que coisa fantástica! E eu tinha ido lá para mandá-lo para aquele lugar por estar me cobrando e ele estava me dando. Tomei o elevador e fui até o 7o andar. Abri a porta da sala e ele me olhou por cima dos óculos. 'O que você quer?', perguntou. 'Você é um cara fantástico!'. Bati a porta e fui embora. Nunca mais vi o Geraldo Alonso.

Carlito nunca mais viu Geraldo Alonso mas nunca o esqueceu. Anos mais tarde, ao ler no jornal um anúncio da Norton pedindo profissionais de atendimento para contas pequenas, Carlito Maia contratou um anão e mandou se apresentar pessoalmente a Geraldo Alonso, com uma carta de recomendação. O próprio Geraldo tinha prazer de contar essa história.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



PubliciERRO
Lá pelos anos sessenta, Carlito Maia, quando trabalhava na MacCann, já cismava e reclamava a mudança nesta embalagem, de 'Leite em pó integral', para 'Leite integral em pó'. Está na lata até hoje!

Aly
www.letteri.blogger.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Minhocas do Carlito (pág. 93)
"Minha mesa ficava em frente à do Carlito, o que me tornava um observador privilegiado e obrigatório de sua estranha forma de trabalhar. Ele passava horas fumando, esfregando as mãos, olhando para fora, lendo jornais... e pensando. Quando menos se esperava o Carlito dava um berro:

- Tive uma puta idéia!

A puta idéia, quase sempre, era sensacional. Depois de jogar a invenção na mesa, o gênio descia para comemorar o feito... No Paribar, é claro. Aos sócios cabia a tarefa de descobrir se a idéia era exeqüível e para que cliente serviria. Quando não se adequava aos clientes da casa o projeto virava solicitação no ato.

- Vamos vender esta para uma fábrica de cigarros!

Raro era o peixe que não engolia as iscas do Carlito...

Certa manhã, eu cheguei mais cedo para adiantar uns textos antes que os telefones disparassem a tocar. A faxineira, muito gentil, foi preparar um café na copa. Peguei os jornais do dia e comecei a dar uma folheada. O assunto das manchetes era o mesmo: Lei do Inquilinato e Congelamento dos Aluguéis...

Pouco depois chegou o Carlito, assobiando sua alegria matutina. Enquanto trocávamos nossas habituais saudações são-paulinas (o Magaldi era Corinthiano), a faxineira entrou com a bandeja de café e um ar de séria preocupação...

- O que é que houve D. Maria? - perguntou o prestativo Carlito.

- Sabe... é que estou preocupada com esta nova Lei do Inquilinato...

Uma bola levantada com tanta precisão, o Carlito nunca poderia desperdiçar:

- Imagine! A senhora pode ficar tranqüila! O presidente Jango jamais irá fazer uma Lei para prejudicar os pobres!

Aí aconteceu o imprevisível. Muito sem graça e mais assustada ainda com os esclarecimentos tranqüilizadores do patrão, a faxineira informou a razão objetiva de seus problemas:

- Pois é, seu Carlito! Sabe como é? Eu tenho umas casinhas de aluguel lá no meu bairro e não sei como é que vai ficar a minha renda...

A xícara de café começou a tremer nas mãos do prestativo Maia. Eu me arranquei da sala para ir dar risada no banheiro. Quando voltei, meu politizado sócio tinha desaparecido. A faxineira, duplamente apavorada, ainda veio me perguntar se havia feito ou dito alguma coisa de errado:

- Não sei por que, mas acho que seu Carlito ficou bravo comigo...

O BOM CONSELHEIRO OUVE O CASO POR INTEIRO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Te cuida, camarada!
(pág. 105)
A primeira manifestação do mais evidente do que ía acontecer, foi um desfile pré-carnavalesco pelas ruas da cidade: A Marcha com Deus pela Liberdade! Nós fomos até a praça da República para ver a banda passar. Nossos ex-patrões e nossos clientes gritavam animadamente:

- "Um, dois, três, Brizola no xadrez!"

Quando Jango levou seu discurso (e era só discurso) revolucionário para dentro dos quartéis, o caldo entornou. Os milicos - devidamente engraxados - aderiram a fúria anti-comunista. Tudo cenário! O que se pretendia para evitar a reeleição de JK - um fato consumado. Das janelas da Magaldi & Maia a gente avistava os balcões do Estadão. No dia 1º de abril, quando os Mesquita começaram a soltar foguetes e o Dr. Júlio apareceu para saudar os embasbacados transeuntes, o jeito foi desligar o radinho e continuar bebendo.

O Carlito ainda achava que os sargentos e os marinheiros iriam se revoltar em defesa do Presidente. Tudo ilusão. Muitos anos mais tarde, durante uma entrevista, um dos conspiradores mais ativos do golpe de 64 me confessou:

- Na madrugada do comício da Central, eu segui o carro do Jango do Catete até uma garçonete em Ipanema. O homem só estava preocupado com a amante. Quando me viu fez um gesto para que eu ficasse calado... sobre a sua trepadinha!

Poucas semanas depois, já fora do Brasil, ele mandou o seu piloto me oferecer, por um bom preço, dois aviões que havia acabado de importar. Eu comprei, é claro.

As semanas seguintes foram humilhantes. Gente ameaçada. Amigos presos. A força bruta e a boçalidade cantando vitória. Um merda! Alguns consumidores assíduos de nosso uísque de fim de tarde desapareceram subitamente. Não era conveniente freqüentar simpatizantes do ancien régime.

Nesse clima, aconteceu uma ótima com o Carlito. Alguns dias antes do golpe, um assustado vizinho foi à casa dele pedir proteção caso os perigosos comunistas tomassem o poder. Na manhã do dia 2 de abril, quando o Carlito saiu para trabalhar o outro berrou da janela:

- Te cuida, camarada!

É DE MUITO MAL GOSTO ANDAR COM AMIGOS DO REI DEPOSTO!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


O Dedão de Jeová
(pág.107)
Muitos jornais que apoiavam Goulart ainda tentaram manter uma linha editorial coerente, criticando os políticos e militares golpistas. Alguns eram veículos poderosos. Mídia certa, programada pelos mais variados anunciantes. O resultado foi imediato. Telefonema após telefonema, a ordem era a mesma:

- Corta da programação!

Beneficiados foram os picaretas dos Diários Associados que logo inventaram a campanha "Dê ouro para o bem do Brasil" - promoção legal para puxar o saco dos novos poderosos e embolsar algumas aliancinhas dos incautos.

Alguns meses depois dos cortes ideológicos o senhor ministro Roberto Campos tomou certas providências antiinflacionárias que generalizaram a sessão de poda.

Quando os marchadores e patrióticos anunciantes perceberam o tamanho da peroba recessiva que seu querido governo estava lhes aprontando... Entraram em pânico. Num único dia - foi uma terça-feira, ah! como eu me lembro! - perdemos quase 70 por cento de nosso faturamento. Alguns clientes cancelaram toda a programação.

A crise e o desemprego atingiram a todos. Cada empresa tratou de se virar como foi possível. Alguns - como nós - trataram de afiar a criatividade. Outros... a filha-da-putice. Um telefonema amigo deu o alarme:

- Venham já pra cá! O assunto é muito urgente!

Na sala da diretoria da Semp a conversa foi curta e objetiva:

- Mais do que nossa agência, vocês são nossos amigos. Esteve aqui o contato de um concorrente de vocês trazendo uma ficha policial sobre suas atividades políticas. É claro que isso nos interessa e vocês têm toda a nossa confiança profissional. O que vocês precisam é se precaver... Ele deve estar visitando seus outros clientes.

Estava. O crápula era um principiante que trabalhava para S.J. de Mello - uma agência dirigida por pastores protestantes. Se eles concordavam ou não com os métodos bíblicos utilizados pelo seu colaborador, é coisa que não sabemos. Mas que queriam comungar messânicamente as nossas contas... sobre isso não há a menor dúvida!

NA PIOR HORA DA LUTA SEMPRE APARECE UM FILHO DA PUTA!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Maquiavel Maia de Souza
(pág. 109)
Anulado a tempo o ataque calhorda tratamos de instigar o Carlito a bolar uma de suas costumeiras maldades. A vingança tinha de ser das bravas. É claro que ele caprichou.

O plano era simples. Convidamos para um papo o pessoal das agências mais amigas: PDP, Oficina, Marcus Pereira. Contamos o caso que nas semanas seguintes, as três agências chamariam o dedo-duro para uma provável contratação. Os lances de grana seriam cada vez mais altos, mas ninguém chegaria a bater o martelo. O homem tinha de se sentir tão disputado e tão seguro que... 

- Aleluia! Pediu demissão!

O informante aliado nos telefonou avisando que o plano tinha dado certo. O alcagüete, iludido, pediu as contas na S. J. de Mello, contando de antimão com algum das três generosas ofertas. Aí foi só espalhar a história na praça. Ninguém teve coragem de empregar o cara.

TODO DEDO-DURO SE CONSIDERA CONFIÁVEL E SEGURO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Ataque a Saigon! (pág. 110)
Além das preocupações mais concretas do front interno, a esquerda romântica estava em plena luta no Vietnã, Diariamente a gente acompanhava o noticiário da guerra e todos torciam fanaticamente pelos vietcongues. Aos som das canções do Bob Dylan e da Joan Baez, a gente comemorava as derrotas freqüentes dos inocentes e dopados mariners americanos. Um dia, a Magaldi & Maia foi chamada pela americaníssima Baush-Lomb - sediada no Rio de Janeiro. O possível cliente queria uma campanha para aumentar as vendas de óculos ray-ban. Sabe-se lá por que recomendação amiga vieram bater a nossa porta. Bem... faturamento é faturamento e nessa hora ninguém é suficientemente louco para misturar mídia com ideologia. Ou será que...

Eu e o gordo rachamos a cabeça e criamos uma campanha linda. Tudo pronto, entregamos o material para o Carlito fazer a apresentação. ele foi bem cedinho para o Rio e a gente ficou fazendo figa a espera de alguma notícia. A manhã passou... e nada! Lá pelo meio da tarde, o silêncio de nosso enviado especial começou a preocupar... 

-  Deve ter dado merda...

Só a noite conseguimos localizar nosso desaparecido sócio e tomar conhecimento de sua espantosa apresentação para a caprichada campanha. No avião, o Carlito leu nas manchetes dos jornais que os guerrilheiros vietcongues tinham conseguido invadir a embaixada americana em Saigon.

Muito empolgado com o extraordinário feito bélico, ele chegou a mil por hora no cliente. Os gringos, é claro, também tinham lido as notícias e não estavam para muitas brincadeiras. Aí, o velho Carlito não se conteve. Antes mesmo de abrir o pacote com os layouts soltou a pérola:

- Vocês hoje em Saigon, hein... top-top!

Adeus campanha! Adeus cliente! Adeus faturamento!

GOZAÇÃO COM FREGUÊS, SÓ DEPOIS DO FIM DO MÊS!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Festa no céu

Infelizmente, a Magaldi, Maia & Prósperi está reunida novamente. Hoje, 9 de abril 2003, Carlos Prósperi resolveu tomar outros ares e foi se juntar a Carlos Queiroz Telles, João Carlos Magaldi e Carlito Maia - seus sócios na agência que revolucionou a propaganda brasileira nos anos 60. Para os que ficam por aqui, é mais uma perda a lamentar. Para os quatro, a festa no céu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São Paulo, sexta-feira, 19 de julho de 1968
Neste texto foi mantida a grafia original

BEATLES VÃO TOCAR BERIMBAU

 
Os Beatles vão receber um berimbau de presente das mãos de Vinicius de Morais e Baden Powell, numa festa que, para o publicitário Carlito Maia, dono da idéia, será um verdadeiro carnaval e teria o apoio irrestrito de Assis Chateaubriand, se ele estivesse vivo.

A entrega será feita em novembro, na capital inglesa, com as presenças - ainda não confirmadas - de Marta Rocha, Marta Vasconcelos, "miss" Universo, Florinda Bulcão, a "namorada" cearense de Richard Burton, e Georgiana Russel, filha do embaixador inglês no Brasil, que já apoiou a promoção e está entusiasmada com ela. Na ocasião será feita demonstração ao vivo, com capoeiristas baianos e tocadores de berimbau, entre eles o Camafeu de Oxossi e Alfredão, que há varios anos trabalha com Baden. "Faremos um carnaval maior ainda do que o de Chateaubriand, quando entregou a Ordem do Chapéu de Couro à rainha", promete Carlito.

O objetivo da promoção, que será financiada por firmas particulares e, possivelmente, pelo Itamarati, é este: induzir os Beatles a introduzirem o berimbau em seus arranjos, como já o fizeram com a citara e alguns instrumentos exoticos da India.

Para Tereza, mulher de Baden Powell, o berimbau na mão dos Beatles servirá também para maior divulgação da musica popular brasileira na Inglaterra. Segundo ela este país é um dos poucos em que nossa musica ainda não "aconteceu" e a oportunidade é muito boa para que isso se dê.

Carlito Maia, da agencia "Norton Publicidade", foi co-proprietario de Magaldi, na Agencia Magaldi-Maia, a que lançou Roberto Carlos. Escolhendo Baden e Vinicius para serem os entregadores do berimbau, o publicitario vê uma atitude coerente, de vez que foram Baden e Vinicius os reveladores do instrumento, quando compuseram o samba "Berimbau".

BADEN CONTINUA COM SEU MUNDO______________________________________________

Baden Powell continua com seu "Mundo Musical" no Teatro Bela Vista, fazendo sucesso de publico, mas não tão grande como no Santa Rosa, no Rio, onde o espetaculo ficou mais de 5 meses em cartaz, sempre com casas lotadas. Com Baden, que se apresenta como concertista e como compositor, estão a cantora Marcia e o conjunto Os Originais do Samba. O termino da temporada está previsto para 4 de agosto.

"O Mundo Musical de Baden Powell" tambem está sendo mostrado na boate "Blow Up" (rua Augusta) e lá, embora reduzido, tem a colaboração de Vinicius de Morais e Elis Regina, que falam em fitas previamente gravadas. Deverá ficar, igualmente, até o começo de agosto e ninguem deve perder essa oportunidade, no teatro ou na boate, de assistir a um dos mais categorizados artistas brasileiros. Baden é sempre um "show" de virtuosismo, tecnica e inspiração.

ALMANAQUE MISCELÂNEA - Folha Online