ZÉ NUNO
MARTINS, produtor de TV - Lisboa
e-mail para Eugênio
Bucci / JB 27.6.2002
Caro Eugénio,
Não o conheço, a Você.
Que não me conhece. Também.
Mas, pelos vistos, como tanta outra gente por esse mundo de cristo,
conhecemo-nos em Carlito.
Carlito, com efeito, foi assim como uma espécie de cidade.
Ou mesmo uma república inteira, onde os cidadãos e a cidadania se
encontravam todos os dias: ah, como ele gostava de falar dos Amigos
aos Amigos.
Isso, ainda hoje, passados 17 ou 18 anos que o perdi de vista, é dos
aspectos que mais me impressionaram no modo de ser de Carlito...
Tenho 54 anos.
Sou Produtor de TV em Lisboa.
Nos anos setenta e oitenta, como Radialista e Produtor de Shows, andei
muito pelos Brasis.
E já não recordo quem me apresentou a Carlito. (Terá sido Chico Buarque?
Julgo que sim, Chico apenas me apresentou sempre pessoas notáveis).
Nasceu aí uma longa Amizade, que nem mesmo as divergências ideológicas
extemporâneas e tardias conseguiriam destruir: a malbaratagem da intensidade
dos nossos contactos só verdadeiramente se daria com o meu progressivo
afastamento físico (e profissional) das coisas e dos casos brasileiros,
com um mar deste tamanho a interpor-se pelo meio e de uma maneira
cada vez mais radical.
Mas dele me ficou para sempre, como um marco impressivo, a imagem
indelével de um ser humano absolutamente incomum.
Carlito era assim. Absolutamente incomum.
A voz velada, o olhar matreiro, o tempero permanente do humor, a agudíssima
consciência cívica, as mãos magras do Artista, a permanente ternura,
a imensa força de vontade (que o levou a conseguir dobrar-se sobre
si próprio); os telegramas, os telefonemas, as colagens; os ramos
de flores por minha Filha Marta e aquelas folhinhas encimadas com
o olho-tela de cristal azul da Globo, escritas a marcador vermelho
com sua letra de arquitecto em capitulares, sei lá...
Tudo em Carlito constituia motivo de fascínio, sobretudo para quem
como eu, por vezes se sentia (mal) impressionado pela ligeireza e
simplicidade do trânsito de emoções quase sempre característico de
muitos dos meus muitos amigos a Sul do Equador.
É que, mesmo na mais descontraída gargalhada que Carlito soltava,
por detrás dos seus óculos de metal sempre havia um qualquer profundo
sentido, menos evidente do que a "espuma do chope" daria a entender.
Com o desaparecimento de Carlito - de que tomei conhecimento do modo
mais inesperado, na passada quinta feira à noite, navegando no site
do JB - sinto, passados estes anos, uma enorme saudade de São Paulo
e de um imenso Brasil solidário que ele me ajudou a descobrir e conhecer.
Um Brasil que, salvo o devido respeito, ultrapassa as fronteiras -
hoje, parece que universais... embora redutoras - e muito para além
das que se estabelecem apenas com ronaldos e rivaldos.
Por seu intermédio, Eugénio, deixe-me dizer:
- Adeus, Carlito, meu Amigo!
Tenha paz!
Zé Nuno Martins em Lisboa

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