ZIRALDO
PASQUIM nº 20 - 02 a 08 de julho/2002
CARLITO MAIA - LÁ VAI O AMIGO DO CHAPLIN
De repente, um velho amigo se vai. Como no soneto do Vinícius, faz-se
do amigo próximo o distante, de repente, não mais que de repente.
A tensão com que Roberto Drummond vivia a vida dava a impressão de
que ela estava pregada a ele para sempre. Sua sangüínea paixão por
ela não nos deixava acreditar que Roberto pudesse abandonar o ato
de viver assim, de repente, não mais que de repente.
Os amigos se vão sem que a gente consinta, sem que a gente queira.
Poucos dias antes da sua partida, um outro velho e querido companheiro
decidiu, também, deixar-nos órfãos do seu permanente carinho. Carlito
Maia, ao contrário do Roberto, talvez por excesso de generosidade,
resolveu partir devagar. Foi deixando a vida aos poucos, deixando-nos
antever pedaços dela apenas no seu olhar, que nos dizia que ele estava
atento a tudo em sua volta. A cada gesto ou palavra de seus amigos,
ele aceitava com nítida resignação o fato de não poder devolver nossos
abraços nem nos deixar ouvir suas respostas. Era preciso aprender
a ler os seus olhos, como Teresa, seu anjo da guarda, sabia ler e
o fez por seus amigos, enquanto durou sua longa finição.
Como a gente sempre acaba dizendo nessas horas, não convivi com eles
o tanto gostaria. Carlito em São Paulo, Roberto em Belo Horizonte
e eu no Rio, acredito que os três sabiam que éramos entidades fraternas.
Conheci o Carlito quando o Carlos Prósperi me chamou a São Paulo para
fazer a arte de um anúncio da agência que ele tinha com o Magaldi
e o Carlito Maia, a Jovem Guarda. Foi o primeiro prêmio que ganhei
neste mister. A partir daí ganhei também sua amizade, suas flores,
seus bilhetinhos de amor.
O Roberto, eu conhecia de ouvir falar, pois somos, os dois, do Vale
do Rio Doce. Ele, já fazendo sucesso no jornalismo em BH, veio para
o Rio ser pauteiro do Jornal do Brasil, onde eu já estava. Uma noite,
na Praça do Lido, em frente ao mar de Copacabana, o mar bramindo -
não muito que ele não brame muito ali - descobri-o sentado na calçada
da praia, o olhar perdido no negro horizonte. Ele me explicou que
eu não poderia entender o que estava se passando, ele queria voltar,
o mar não era um túmulo digno para as suas angústias. E voltou. Para
tornar-se um dos maiores escritores brasileiros de sua geração.
A vantagem de se viver mais do que o devido é ter histórias como estas
para contar, é ter vivido momentos assim. Dói, é certo, deixá-los
para trás, mas temos que considerá-los como compensações existenciais.
É, todavia, reconfortante poder dispor destas duas páginas para, juntando
mais alguns amigos e conviventes, prestar a devida homenagem a estas
duas figuras, cujas presenças em nossas vidas se transformaram - em
nossas biografias - num privilégio sem adjetivos.

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